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Cicatrizes da Memória

O sonho do arquiteto é construir; seu pesadelo é a ruína. Na cidade, ambos surgem lado a lado: novas construções e destroços. Investigá-las exige registro, pois o esquecimento é marca do nosso tempo. Tudo vira passado sob as novas construções, como cosmética que apaga rugas e cicatrizes da história. Este projeto de fotografia registra a verticalização das cidades e a dinâmica de destruição e construção. Velhas casas, símbolos da memória comunitária, dão lugar a edifícios e espaços comerciais. Cada casa demolida não é só perda física, mas erosão da memória coletiva: histórias e sonhos de gerações, perdidos enquanto o novo surge sem preservá-los. O título, Cicatrizes da Memória, nasce disso: alguns vestígios permanecem, invisíveis ao transeunte. Terrenos baldios, estacionamentos e casas recém-demolidas guardam essas marcas, até que o interesse imobiliário se imponha. O trabalho limita-se a registrar essas marcas, ciente de que não se pode devolver memória nem vidas às casas destruídas. Restam vestígios visíveis e invisíveis, testemunhos de uma cidade que privilegia o futuro em detrimento do passado. O que resta são cacos, restos de alvenaria, como cascas de feridas urbanas. Há uma nostalgia1, melancolia profunda pelo desprezo da memória, constitutivo essencial da história.
1 νοσταλγία (nos-tal-ghí-a): a dor do lugar.

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© 2013 by paulodetarso

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